Interoperabilidade entre softwares BIM: como usar o IFC
Por Construção ConectadaPublicado em
O que é interoperabilidade e por que o IFC existe
Numa obra de médio porte, a arquitetura, a estrutura e as instalações raramente saem do mesmo programa. Cada escritório trabalha com a ferramenta que domina, e o coordenador precisa juntar tudo num único modelo para conferir interferências. Quando essa junção exige refazer elementos à mão, a equipe perde dias que deveriam ser de decisão.
Interoperabilidade é a capacidade de gerenciar e comunicar dados eletrônicos de projeto entre empresas colaboradoras e dentro de cada empresa, entre sistemas de projeto, construção e manutenção. Essa é a definição usada pelo NIST, o instituto de padrões dos Estados Unidos, no relatório de 2004 sobre o custo da interoperabilidade inadequada no setor de instalações de capital.
O IFC (Industry Foundation Classes) é o formato de arquivo neutro e aberto, desenvolvido pela buildingSMART, criado para permitir essa troca num fluxo BIM. Material da UFRGS sobre o tema explica que ele é a base do chamado open BIM e que a padronização não está na estrutura interna de dados de cada programa, e sim nas informações que são compartilhadas. O formato está registrado na ISO, e a página da UFRGS o relaciona à ISO 16739:2013.
O que se ganha e o que se perde ao exportar para IFC
Um arquivo IFC não é uma cópia do arquivo de origem. É uma tradução. Quem exporta decide o que entra na tradução, e quem importa decide como ler. Entender essa divisão evita a surpresa de abrir o modelo do projetista e encontrar paredes sem material ou pilares sem a classificação combinada.
A tabela abaixo resume, em linguagem de obra, o que costuma atravessar a troca e o que costuma ficar para trás. A leitura é da casa e depende da configuração de cada exportação, por isso vale como roteiro de conferência, não como garantia.
| Item | Costuma atravessar | Costuma ficar para trás ou exigir conferência |
|---|---|---|
| Geometria | Forma, posição e dimensões dos elementos | Geometria muito complexa pode ser simplificada na tradução |
| Tipo e classificação | Categoria do elemento, como parede, laje, tubo | Classificação própria da empresa, se não for mapeada na exportação |
| Propriedades | Conjuntos de propriedades combinados no plano de trabalho | Propriedades criadas fora do combinado, sem nome padronizado |
| Estrutura espacial | Edifício, pavimentos e ambientes | Níveis com nomes diferentes entre disciplinas |
| Lógica de modelagem | Quase nada | Parâmetros, regras e histórico do programa de origem |
| Posição no terreno | Coordenadas, quando definidas | Origem do modelo e rotação, se cada disciplina adotou a sua |
Por que a troca mal feita custa caro
O NIST estimou, para o ano de 2002, um custo anual de 15,8 bilhões de dólares com interoperabilidade inadequada no setor de instalações de capital dos Estados Unidos. Segundo o relatório, cerca de dois terços desse valor, aproximadamente 10,6 bilhões, recaem sobre proprietários e operadores, que sentem o problema principalmente durante a operação e a manutenção. Os autores consideram o número conservador, porque deixaram de fora custos de ineficiência e de oportunidade perdida.
O dado é americano e antigo, e não serve como previsão para a sua obra. Serve para dizer onde o problema aparece. O custo da troca ruim não se concentra no escritório de projeto. Ele chega ao dono do ativo anos depois, quando a equipe de manutenção recebe um modelo em que ninguém confia e volta a procurar informação em papel.
Na prática de uma construtora, o mesmo mecanismo aparece em escala menor. Um modelo que chega sem propriedades obriga o orçamentista a medir de novo. Um modelo com a origem deslocada atrasa a reunião de coordenação. A interoperabilidade se paga nas pequenas horas que a equipe deixa de gastar.
Como testar uma entrega em IFC antes de aceitar
O teste mais barato é pedir um arquivo IFC de amostra de um pavimento, ainda no início do projeto, e abri-lo no programa de quem vai coordenar. Corrigir a configuração de exportação no mês um custa uma conversa. Corrigir no mês oito custa uma semana de retrabalho para cada disciplina.
Depois da amostra, repita a conferência a cada entrega. Uma lista curta resolve a maior parte dos problemas:
- Abra o arquivo em pelo menos um visualizador diferente do programa de origem e compare com a vista que o projetista enviou.
- Confira a contagem de elementos por categoria contra o esperado. Pavimento sem pilares ou sem lajes aparece na primeira soma.
- Selecione dez elementos ao acaso e leia as propriedades. Os campos combinados no plano de trabalho existem, estão preenchidos e usam a unidade correta?
- Sobreponha com o modelo de outra disciplina. Se paredes e estrutura não coincidem, o problema costuma ser origem e rotação, não projeto.
- Registre o resultado por escrito e devolva ao projetista com o que deve ser ajustado na próxima exportação.
O que deixar combinado no contrato e no plano de execução
Interoperabilidade se decide antes da modelagem. O plano de execução BIM é o lugar para registrar o formato de troca, a versão do esquema IFC aceita, a origem e a unidade comuns, os nomes de pavimentos e as propriedades obrigatórias por tipo de elemento. Sem isso, cada disciplina decide sozinha e a diferença só aparece na hora de juntar.
Vale também combinar o que o IFC não carrega. Se o contratante quer receber o arquivo nativo além do IFC, isso entra no escopo. Se o IFC é a entrega oficial para a operação do edifício, ele precisa ser tratado como produto e não como subproduto da exportação. O Decreto 10.306/2020 trata o BIM como conjunto de tecnologias e processos integrados para criar, utilizar e atualizar modelos digitais, e a atualização do modelo as built é uma etapa prevista para obras públicas que usam BIM.
O que fazer na segunda-feira
Escolha uma disciplina do seu próximo projeto e peça um IFC de um pavimento. Abra no programa de quem coordena, siga a lista acima e anote o que faltou. Leve a lista para a reunião com o projetista e transforme-a em requisito do plano de execução. Em duas semanas você terá o primeiro gabarito de exportação da sua empresa, feito com o seu tipo de obra.
Marcas diferentes conversam bem quando o combinado é claro. Toda troca que dá certo tem um responsável que definiu o que atravessa e conferiu o que chegou. Se a sua empresa quer conversar sobre interoperabilidade e entrega de modelos, escreva para a Construção Conectada pelo WhatsApp +55 11 93262-8591 ou em construcaoconectada.com/contato.
Perguntas frequentes
O que é IFC em BIM?
IFC (Industry Foundation Classes) é um formato de arquivo neutro e aberto, desenvolvido pela buildingSMART, para trocar modelos entre softwares diferentes num fluxo BIM. Ele descreve elementos, tipos, propriedades e a estrutura espacial da obra, sem depender do programa que gerou o arquivo.
IFC substitui o arquivo nativo do projeto?
Não substitui. O IFC é uma tradução feita para troca e leitura. O arquivo nativo guarda a lógica de modelagem do programa de origem. Quem precisa editar o projeto continua pedindo o nativo, e o contrato deve dizer quais arquivos compõem a entrega.
Por que meu IFC chega sem propriedades?
Em geral porque a exportação não foi configurada para incluí-las ou porque as propriedades foram criadas fora do padrão combinado. A solução é registrar no plano de execução quais conjuntos de propriedades são obrigatórios e testar uma amostra antes da entrega completa.
Como saber se o IFC recebido está correto?
Abra em um visualizador independente, compare a contagem de elementos por categoria, leia as propriedades de uma amostra e sobreponha com outra disciplina. Divergência de posição costuma indicar origem ou rotação diferentes. Registre o resultado e devolva ao projetista.
Preciso combinar a versão do IFC?
Sim. O esquema IFC tem versões, e nem todo programa lê todas da mesma forma. Combine a versão aceita no plano de execução e confirme no teste de amostra que o programa de quem coordena abre o arquivo sem perdas relevantes.
Fontes
- NIST GCR 04-867, Cost Analysis of Inadequate Interoperability in the U.S. Capital Facilities Industry (2004): definição de interoperabilidade e estimativa de custo (acessado em 31/10/2026)
- UFRGS, A Importância do IFC (blog Modelaz): IFC como formato neutro e aberto da buildingSMART (acessado em 31/10/2026)
- Decreto 10.306/2020: definição de BIM (art. 3º) e fases de implantação (art. 4º) (acessado em 31/10/2026)