História do BIM: do CAD ao openBIM
Por Construção ConectadaPublicado em
Série publicada originalmente no Instagram entre 11/07/2026 e 28/08/2026. Adaptado e ampliado para este blog em 31/10/2026.
De onde vem o BIM?
Hoje a sigla BIM aparece em edital, em contrato e em reunião de obra. A ideia por trás dela é bem mais velha. Em julho e agosto de 2026, a Construção Conectada publicou no Instagram uma série sobre a evolução da engenharia digital, com cinco peças: Rucaps, AutoCAD, Revit, o modelo na nuvem e o openBIM. Este artigo conta essa história de forma mais completa, apoiada em fontes abertas.
A pergunta que organiza o texto é a de quem trabalha em obra. De que forma o desenho deixou de ser um conjunto de linhas e passou a ser informação que se pode conferir, medir e trocar entre quem projeta, quem orça e quem constrói?
Anos 1970 e 1980: a ideia vem antes do nome
A AEC Magazine, revista especializada em arquitetura, engenharia e construção, situa em 1974 os conceitos que hoje associamos ao BIM. Naquele ano, Charles Eastman, chamado pela revista de pai do BIM, descreveu esses conceitos no software Building Description System, o BDS, quase uma década antes da versão pública do AutoCAD em 2D.
O Rucaps, sistema usado na época, é descrito pela mesma revista como precursor dos aplicativos de BIM. Ele se baseava no conceito de 2D e meio proposto no BDS, em que vistas 2D de planta, corte e elevação ficam ligadas a cada objeto. A revista ressalta que nenhum desses sistemas era BIM: os objetos não eram paramétricos, nem inteligentes, nem carregavam metadados.
Em 1986, Jonathan Ingram, que havia trabalhado no Rucaps, lançou o Sonata. Segundo a revista, ele trazia objetos que se ajustavam uns aos outros, como portas e janelas embutidas em paredes com os detalhes gerados automaticamente, e atualização de todas as vistas a cada mudança. A AEC Magazine o chama, com a ressalva de que o tema é debatido, de primeiro aplicativo capaz de BIM de verdade. O Archicad teve a primeira versão no ano seguinte.
Do objeto com regras ao modelo paramétrico
O Sonata evoluiu para o Reflex, vendido à empresa PTC em 1996. Dois anos depois, segundo a AEC Magazine, dois funcionários da PTC saíram para fundar a empresa que desenvolveu o Revit. A revista aponta como diferencial do Revit o editor de famílias, que tornou simples criar, manipular e quantificar objetos paramétricos e permitiu bibliotecas reutilizáveis entre projetos.
Foi a consolidação do que a peça de julho descrevia: mudou a parede, mudou tudo o que depende dela, e o desenho passou a carregar dado. É o que permite ao orçamentista extrair quantitativo do modelo e ao planejador ligar o cronograma aos elementos.
Mais tarde, o modelo saiu da máquina do projetista. Plataformas atuais, como a Speckle, publicam modelos a partir de ferramentas de projeto e os disponibilizam em um visualizador na web, com histórico de versões e comentários. A revisão e a decisão podem acontecer com o modelo aberto no navegador, em qualquer lugar, inclusive no canteiro.
IFC e openBIM: o dado da obra deixa de ter dono único
Se cada ferramenta guarda o modelo no seu próprio formato, trocar de software significa perder acesso fácil ao histórico do projeto. O IFC nasceu para tratar disso. Segundo o Designing Buildings, wiki britânica sobre construção, o IFC foi desenvolvido em 1994 por um consórcio formado pela Autodesk, a Industry Alliance for Interoperability. Em 1997, o grupo virou a International Alliance for Interoperability, para apoiar um formato não proprietário, e hoje é a buildingSMART. A versão IFC4 foi registrada na ISO como ISO 16739 em 2013.
A mesma fonte faz uma ressalva importante. O IFC foi criado para facilitar a interoperabilidade, mas não a garante, porque isso depende de como cada software lê e escreve o formato. Por isso, o contrato precisa dizer qual versão do IFC será entregue e o que deve vir dentro dela.
Em torno do formato surgiram ferramentas livres. A IfcOpenShell, mantida por voluntários como projeto de software livre, lê, escreve e modifica arquivos IFC e trabalha com as versões IFC2X3, IFC4 e IFC4X3. O conjunto de formato aberto e ferramentas abertas é o que se chama de openBIM, e é o que deixa a informação da obra nas mãos de quem a produziu.
A linha do tempo em uma tabela
A tabela reúne os marcos acima, com a fonte de cada data.
| Marco | O que mudou | Fonte |
|---|---|---|
| 1974, Building Description System | Primeiros conceitos do que viria a ser o BIM, descritos por Eastman | AEC Magazine |
| Rucaps (anos 1970 e 1980) | Precursor, ainda sem objetos paramétricos | AEC Magazine |
| 1986, Sonata | Objetos que se ajustam entre si e vistas que se atualizam juntas | AEC Magazine |
| 1996, Reflex vendido à PTC | Passo anterior à criação do Revit | AEC Magazine |
| 1994 e 1997, IFC | Consórcio, depois aliança internacional, hoje buildingSMART | Designing Buildings |
| 2013, IFC4 na ISO | Registro como ISO 16739 | Designing Buildings |
Como o BIM chegou à contratação pública brasileira
No Brasil, o Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020, estabelece a utilização do BIM em obras e serviços de engenharia da administração pública federal. O artigo 3º descreve o BIM como um conjunto de tecnologias e processos integrados para criar, utilizar e atualizar modelos digitais de uma construção, de modo colaborativo. O artigo 4º organiza a implantação em fases, e a segunda inclui orçamentação, planejamento, controle de obras e atualização do modelo como construído.
Confira sempre a redação vigente no site do Planalto, porque o texto pode receber alterações. O artigo sobre BIM no setor público detalha as exigências.
O que a história ensina para a segunda-feira
Três lições servem para quem contrata. A primeira é que a ideia de modelar antes de construir é antiga, e o que mudou foi a capacidade de processá-la em escala. A segunda é que formato fechado prende o dado ao fornecedor. A terceira é que acordo escrito importa mais que ferramenta.
Abra o seu contrato de projeto mais recente e procure duas cláusulas. Uma diz que formato aberto, como o IFC, será entregue junto com o arquivo nativo. A outra diz qual versão do IFC e que informação deve vir nele. Se faltar alguma, anote para o próximo contrato. O texto sobre o que pedir na entrega do modelo ajuda a redigi-las.
Se a sua empresa quer conversar sobre como organizar o dado da sua obra em formatos abertos, escreva para a Construção Conectada pelo WhatsApp +55 11 93262-8591 ou em construcaoconectada.com/contato.
Perguntas frequentes
Quem inventou o BIM?
Não há um único inventor. A AEC Magazine atribui a Charles Eastman os conceitos descritos em 1974 no Building Description System, e a Jonathan Ingram o Sonata, de 1986, com objetos que se ajustam entre si. A história passa por muitas equipes e empresas ao longo de décadas.
Qual a diferença entre CAD e BIM?
No CAD, o desenho é um conjunto de linhas e símbolos. No BIM, cada elemento sabe o que é, carrega informação e se relaciona com os outros, de modo que a mudança em uma vista atualiza as demais e permite extrair quantitativos. Por isso o BIM serve também ao planejamento e ao orçamento.
O que é IFC e para que serve?
IFC é um formato aberto para trocar modelos BIM entre softwares diferentes. Foi criado a partir de 1994 por um consórcio e é mantido pela buildingSMART. Facilita a interoperabilidade, mas não a garante sozinho, porque depende de como cada programa lê e escreve o arquivo.
O que significa openBIM?
É a prática de trocar informação de construção por formatos e processos abertos, como o IFC, para que o dado não fique preso a um fornecedor de software. O ecossistema inclui ferramentas livres, como a IfcOpenShell, que leem e escrevem o formato.
O BIM é obrigatório no Brasil?
Na administração pública federal, o Decreto nº 10.306, de 2020, estabelece o uso do BIM em fases. Para obras privadas não há obrigação geral. A redação vigente do decreto e as normas aplicáveis devem ser conferidas no site do Planalto antes de qualquer decisão contratual.
Fontes
- AEC Magazine, Exploring BIM's hidden past (acessado em 31/10/2026)
- Designing Buildings, Industry Foundation Classes (IFC) (acessado em 31/10/2026)
- IfcOpenShell, página do projeto (acessado em 31/10/2026)
- Speckle, documentação (acessado em 31/10/2026)
- Planalto, Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020 (acessado em 31/10/2026)